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Daniel de Sá

27/05/2013

Acabo de saber que hoje, nos Açores, faleceu Daniel de Sá.

Amigo de papel foi um termo que cunhei quando mais jovem para referir a certas pessoas que a mim pareciam ao mesmo tempo inexistentes e onipresentes. Ray Bradbury era um amigo de papel. Álvares de Azevedo e J. D. Salinger também o eram. Eram inexistentes pois, apesar de alguns deles ainda estarem vivos, eu tinha por certo que não seriam feitos da mesma matéria que meus vizinhos e colegas de classe. Eram onipresentes porque podiam ser encontrados em quase todos os lugares, ainda que escondidos. E tinham essa estranha faculdade de fazerem nova cada coisa que tinham dito e rediriam pelo resto do sempre.

Por um enorme acaso, a vida fez com que eu tivesse ocasião de encontrar inúmeras dessas pessoas de papel e a maturidade me deu o discernimento de saber que a matéria era sim a mesma, ao menos para a imensa maioria.

A verdade é que, nesta vida, encontrei pouquíssimos que me impressionaram, mesmo que muitos quisessem clara e voluntariamente impressionar. Mas vivi também uns poucos momentos de estar em presença de quem me colocasse em meu devido lugar e me desse a certeza de que sim, há alguns que são realmente grandes.

Se me perguntarem, só consigo mencionar duas: uma delas foi Agustina Bessa Luís. Apesar de estar lá do meu lado, dividindo água comigo, eu tinha certeza que seu ser ocupava dimensões que ao meu não seria permitdo ocupar. A outra pessoa foi Daniel de Sá. Confesso, humildemente, que até três ou quatro semanas antes de o encontrar não sabia nem ao menos de quem se tratava. No entanto, outra propriedade que têm essas pessoas feitas de matérias outras que as que formam homem comum é a de não poderem nunca mais serem ignorados uma vez que lhes conhecemos a existência. E passam a fazer parte de nós de tal forma, que não somos capazes de acreditar que não são mais, ainda que nos afirmem categoricamente que já não estão mais entre nós.

E como poderíamos, visto que os sabemos assim tão próximos e mesmo dentro de nós?      

Transcrevo a entrada de um diário que mantinha à época que encontrei Daniel de Sá.

“São Miguel, 1o de Agosto de 2010,

 

Hoje encontramos, em casa de Chrys Christello, Daniel de Sá. Dediquei o dia de ontem à leitura d’O Pastor das Casas Mortas e o livro me fez voltar muito do que senti lendo O Amor nos Tempos do Cólera mesclado ao Feijão e o Sonho. Já adivinhava que haveria muito de Daniel de Sá em Manuel Cordovão. E havia. Senti nele um homem que viajou o mundo pelos livros. Ele me descreveu um Fla-Flu dos anos 50 como se houvesse estado no Maracanã, mas não havia. Nem pela televisão o viu, que essa não existia na ilha. Tinha lido tudo pelo Cruzeiro, mas tinha vivido tudo. Do mesmo jeito que me sentei olhando ovelhas ao lado de Manuel Cordovão.”


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