Archive for março \27\UTC 2012

Ideias verdes incolores dormem furiosamente

27/03/2012

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Por que Deus nunca obteve o título de doutor?

14/03/2012

Por que Deus nunca obteve o título de doutor?

Contracorrente ou caminhando ao lado dos ciganos.

08/03/2012

Os linguistas somos uma gente estranha. Muitas outras áreas da ciência se regozijam a cada vez que  a mídia coloca em evidência seu objeto de estudo. Não parece ser o caso da maioria dos cientistas da linguagem. A impressão que se tem é que muitos gostariam que seus assuntos ficassem confinados aos muros das universidades em que trabalham  sem jamais de lá sair, sendo apenas compartilhados entre eles, os mestres, e seus fiéis discípulos.

Os últimos meses foram particularmente ricos em discussões. Houve o acordo ortográfico, que ainda não parou de causar polêmica, o caso do livro didático que supostamente dizia que “é certo falar errado” e agora surgiu a polêmica dos ciganos. Quando deveríamos aproveitar essas oportunidades para divulgar o tipo de trabalho que fazemos e a maneira como abordamos a linguagem, muitos de nós só fizeram se lamentar por estarem tantos “leigos” a falar sobre o assunto e pelas opiniões dos linguistas não terem tido peso maior do que a dos outros cidadãos. Qual uma criança mimada que manda parar um jogo de xadrez porque não admite que o adversário ganhe jogando em seu tabuleiro, muitos se queixam de que cidadãos comuns que nunca estudaram linguística se atrevam a falar sobre essa ferramenta essencial à vida em sociedade que é a língua. Felizmente, outros domínios apresentam atitudes diferentes. Os mecânicos parecem ser bem mais tolerantes e não parecem se importar se outras pessoas, alheias à profissão, conversarem sobre carros da mesma forma que os membros da indústria cinematográfica até gostam de saber que o cinema desperta interesse mesmo naqueles que nunca entraram em um estúdio.

Passemos à polêmica: um advogado entrou com uma ação  exigindo a retirada do mercado do dicionário Houaiss por se ter este recusado a modificar uma das definições do verbete “cigano” onde se lê que a palavra significa “aquele que trapaceia; velhaco, burlador”.   

Ao ler a notícia, confesso que minha primeira reação foi a de achar a situação totalmente absurda, pois um dicionário só faz dar significados de vocábulos, sem nenhum juízo de valor. Como pode alguém querer alterar por força de lei o significado que tem um termo?

Resolvi esperar para colocar na tela minhas bem-traçadas linhas, para que tivesse o tempo de refletir um pouco sobre o assunto. Neste ínterim, todos os veículos de comunicação e uma grande parte dos linguistas que leio e/ou conheço se exprimiram a respeito do assunto. De Danilo Gentili a Danilo Nogueira, pudemos ter acesso às opiniões de muita gente sobre o que deve ou não deve estar em um dicionário. De uma forma geral, quase todos pensam que o que está no dicionário, nele deve permanecer pois nada mais é do que um simples e inocente registro dos significados das palavras que existem no mundo. Muitos chegaram a chamar nazista ou ditatorial a atitude dos ciganos representados pelo advogado e alguns aproveitaram para ressuscitar velhos fantasmas chegando inclusive a dizer que tudo isso é culpa do Lula (???).

Foi então que pensei na velha e batida máxima de Nelson Rodrigues que afirma que toda unanimidade é burra e resolvi colocar meus dois cotovelos na mesa e matutar sobre o assunto. Cheguei à conclusão que os ciganos talvez não estejam tão errados assim em reclamar. Pensemos juntos. Analisemos a frase a seguir, nome de um espetáculo de comédia que, aparentemente, faz muito sucesso no Brasil:

“Quem ri por último é loira ou português”.

Creio que nenhum brasileiro teria dificuldade em compreender que o adjetivo “loira” não tem o sentido de “que tem a cor amarelo-tostada ou entre o dourado e o castanho-claro” e que o termo “português” não significa “indivíduo natural ou habitante de Portugal”. Ambos vocábulos significam algo como “pessoa de pouca inteligência”. No entanto este último significado não se encontra no Houaiss para nenhum destes.

Aproveitei para fazer uma pesquisa de campo e perguntei a minha esposa, que é portuguesa, se ela achava que seria normal se do verbete português constasse a definição “pessoa ingênua e de pouca inteligência”, ainda que indicando ser esse  um uso pejorativo. Ela me disse que a ideia não lhe agradava minimamente e que provavelmente causaria uma pequena revolta em nossos irmãos lusitanos. Não encontrei nenhuma loira disponível para perguntar se ela gostaria que uma tal definição para “loiro” fosse inclusa no Houaiss.

O mesmo pode se estender para inúmeras outras palavras. Vejamos mais um exemplo ocorrido em um comentário de um blog:

“Esse celular é original ou paraguaio?”

 Nesta frase, o adjetivo paraguaio também apresenta um significado diferente de “relativo à República do Paraguai ou o que é seu natural ou habitante”, único que se encontra no verbete do Houaiss. Creio que qualquer brasileiro compreendeu bem que o adjetivo se refere a “falso, produto de contrabando ou contrafação”.

Tentei procurar uma frase escrita em português brasileiro dos últimos 80 anos em que cigano fosse utilizado com o sentido que é apresentado no Houaiss, mas infelizmente (ou felizmente), não tive sucesso.

Agora, pensemos juntos. Por que será que o significado pejorativo de cigano que a grande maioria dos brasileiros desconhece (minha esposa informa que esse significado pejorativo ainda subsiste em algumas regiões de Portugal) aparece dicionarizado, mas os significados igualmente pejorativos, que já têm bem mais de algumas décadas e que são amplamente utilizados para “loira”, “português” e “paraguaio” são ignorados.

A resposta é uma só: acreditar que o dicionário realmente só compila palavras sem ter absolutamente nenhum posicionamento político, social ou ideológico é como acreditar na fada do dente ou em políticos totalmente honestos. Enquanto alguns já colocaram o dentinho de leite embaixo do travesseiro e outros estão esperando que os políticos melhorem tudo no Brasil, os ciganos fizeram muito bem de se levantar e lutar por seus direitos.

Os comentários, são sempre muito bem-vindos.

PS: Recentemente, o pequeno dicionário inglês de Oxford resolveu retirar algumas palavras para criar espaço para palavras novas. Decidiram então retirar uma palavra que já há muito ninguém usa  e econtraram em fita cassete (cassette tape, no original), uma das vítimas para esta eliminação. Responda rápido: quando foi a última vez que você ouviu uma fita cassete e quando foi a última vez que ouviu o citado significado de cigano ser usado, se é que já ouviu?


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