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Honoris causa ou “precisava”…?

29/09/2011

O instituto universitário em que trabalho aqui na França resolveu homenagear o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva com o título de honoris causa. A notícia causou certa celeuma entre alguns jornais e jornalistas que chegaram ao cúmulo de vir cobrar do presidente da universidade que o título não fosse dado à Lula (lembremos que os membros da comissão já haviam decidido por unanimidade que o título seria conferido) já que ele não possuía diploma universitário (talvez esses jornalistas devessem ir ao dicionário buscar a definição de honoris causa).

Discussões políticas à parte, a direção da universidade havia decidido que todos os alunos do campus em que trabalho, o de Poitiers, cidade  que fica a, mais ou menos, 350 km de Paris, seriam convidados a assistir à cerimônia. Nada mais justo, pois nesse campus são feitos estudos sobre a América Latina e todos os alunos têm a obrigatoriedade de falar o português e o espanhol, que são, junto com o francês e o inglês, as línguas oficiais do campus.

Os alunos então decidiram (de livre e espontânea vontade, diga-se de passagem) de fazer algo diferente para homenagear o homenageado e decidiram cantar-lhe uma canção que eu lhes havia passado há algumas aulas, “Pra não dizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré. Vieram me perguntar se poderia causar algum mal-estar, se por acaso essa canção tinha alguma conotação política que pudesse, de alguma forma, ofender o ex-presidente. Como lhes disse que não, pelo contrário, prosseguiram com o projeto e os alunos dos níveis mais avançados, com os quais eu havia usado a música em curso, se apressaram a imprimir letras e ensinar aos alunos mais novos (que começaram a aprender o português há apenas 3 semanas) a cantar a música. Ao final da cerimônia, todos cantaram com alegria e via-se em seus olhos a satisfação de terem feito alguma diferença, ainda que mínima, no mundo, numa língua estrangeira. E essa língua estrangeira era o nosso português, tão pouco ensinado mundo afora.

Qual não foi nossa surpresa quando no dia seguinte vimos que o site terra.com havia publicado uma notícia em que se lia o seguinte trecho:

« Lula ainda teve o discurso interrompido diversas vezes por aplausos e, ao final da cerimônia, teve direito a uma homenagem com carregado sotaque francês: em português e com a letra nas mãos, os alunos entoaram “vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, refrão da famosa música ‘Para dizer que não falei de flores’, de Geraldo Vandré. »

Na aula de hoje de manhã, uma aluna veio me dizer: “precisava ressaltar o sotaque francês? Precisava ressaltar que alguns tinham a letra nas mãos?”.

Pois é, precisava? Por que será que no mesmo site pode-se ler frases como as seguintes:

« A cantora (Shakira) falou em português durante toda a entrevista »

« Vocalista Brian Molko falou em português com os fãs »

« Como no Rio de Janeiro, Waters começou o show sem atrasos, às 21h05, com a música In The Flesh, e arriscou um “obrigado” em português. »

« Jamie Cullum falou em português com a platéia »

Eles que falam com tanto orgulho de cantores que aprendem a palavra « obrigado »… Será que precisava criticar o português desses alunos que tanto querem aprender a nossa língua? Ou será que não era o português deles que eles criticavam…

Francamente, precisava?

“Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais” ou Se o Google Books não faz…

24/09/2011

Caros leitores e colegas,

Após este longo período de férias, o blogue linguisticamente volta à ativa  com algumas novidades.

Nos próximos meses, o blogue será enriquecido com alguns materiais que, penso, serão do agrado de muitos dos linguistas que nos acompanham. Dentre as novidades destacam-se:

algumas edições em fac-símile de livros raros e completamente esgotados; traduções de artigos ainda inéditos em língua portuguesa; registros raros das vozes de alguns dos maiores poetas brasileiros e portugueses e vídeos exclusivos, como um documentário com Roman Jakobson.

Brevemente publicarei também dois textos sobre experiências que tive em Macau ao participar do III SIMELP no final do mês de agosto passado.

O post de hoje traz com exclusividade o e-book com a edição fac-símile de A língua portuguesa no Brasil escrito pelo patrono da cadeira 32 da Academia Brasileira de Filologia, o pernambucano Solidônio Atico Leite. Esta obra raríssima foi publicada pela primeira e única vez em 1922 no Rio de Janeiro pela editora J. Leite & Cia. Esperamos que seja de alguma utilidade para os filólogos, lingüistas históricos e demais interessados que nos acompanham. É a nossa forma de contribuir com a preservação da memória da lingüística brasileira e prestar uma homenagem a todos os que nos precederam e sem os quais dificilmente aqui estaríamos.

OS: O livro encontra-se obviamente em ortografia antiga. Servirá seguramente para que alguns relativizem as coisas e se apercebam que, afinal, o novo acordo ortográfico não mudou tanta coisa assim.

Para baixar o livro, basta clicar aqui.

Bem hajam.


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